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6/27/2015

Cap. 6 - O RECOMEÇAR

Ao terminarem uma curva, o carro de Norton para. À frente deles estava o limite da cidade, mas essa cidade já não existia, em vez dela estava uma poeira enorme, uma espécie de nevoeiro que não permitia ver nada. Esse nevoeiro não se mexia, parecia estático, era como uma barreira branca que ia desde o solo até às nuvens. Era impressionante e medonho. Após vários minutos a olharem para aquilo, Gustavo decidiu avançar devagar até ao nevoeiro, os outros dois ficaram para trás rígidos pedindo-lhe cuidado a Gustavo, quando este tentava avançar pela camada branca sente um cheiro nauseabundo e em seguida os seus olhos ficam a arder e deixa de ter oxigénio. Rapidamente recua a tossir e os seus dois companheiros vão ajuda-lo a recompor-se. Sentam-no numa pedra que estava bem mais atrás, para que Gustavo possa recuperar e juntos olham para aquele fenómeno branco como se fosse um espetáculo terrível.

Cap. 7 - A REUNIÃO

Gustavo afastou-se com a dúvida se tinha magoado os sentimentos do velho Proença, mas com alívio de deixar para trás aquele ser que lhe dava repúdio. Pelo seu lado, Proença ficou imóvel durante algum tempo, perplexo com as palavras de Gustavo. Antes da reunião tinha intenção de dar lugar aos novos, de deixar a presidência da comissão em alguém mais jovem da sua confiança e ao ouvir Gustavo pensou que seria a pessoa idónea para assumir essa responsabilidade. Jamais lhe passou pela cabeça que alguém podia candidatar-se à comissão sem que ele estivesse na cabeça da lista ou pelo menos na lista. Ele tinha criado a comissão, tinha representado a aldeia durante vinte anos e agora um menino da cidade vinha com a intenção e tirar-lhe o lugar sem sequer pedir licença ou autorização. A sua perplexidade passou a indignação e em seguida a fúria e humilhação. Decidiu que não iria sair assim, pela porta traseira, a sua obra e o seu legado merecia o reconhecimento dos seus concidadãos. Dirigiu-se para casa pensando numa forma de vingar a humilhação que Gustavo lhe fez passar, estava decidido que iria continuar a ser o presidente da comissão nem que para isso tivesse que convencer ou mesmo obrigar a votarem todos nele.

Cap. 8 - UMA AVENTURA ELEITORAL


....sentiu no ar o calor sufocante que se fazia sentir e previu facilmente que aquele seria mais um dia de verão e calor tórrido, mas a sua mente rapidamente voou para aquilo que tanto esperava, era o dia das eleições. Tinha passado uma noite má, agitada com sonhos sem qualquer sentido e acordou várias vezes com ânsia de que a escuridão da noite fosse substituída pela luz do dia. Pensou que poderia perder as eleições e esse pensamento deixou-o quase a tremer e aí notou que estava demasiado nervoso e ansioso, desejava saber já o vencedor e estava claro que não estava preparado para perder, a derrota seria para ele uma enorme humilhação e até chegou a ponderar em não aceitar o resultado caso este não fosse do seu agrado, mas todos estes pensamentos desapareceram da sua mente, tinha combinado tomar o pequeno almoço com Norton que estaria na mesa de voto durante esse dia.

Cap. 9 - OS VIZINHOS


- Esses estatutos são ridículos, não têm qualquer legitimidade, tal como este exército que você criou está totalmente fora da lei.

- Da lei? - Gustavo dá uma pequena gargalhada – Qual lei? Você ainda pensa que é o comandante da policia? Meu amigo, essa instituição já acabou, já não existe, tal como desapareceu qualquer cidade de Portugal, o Estado ou mesmo o país já não existe, o que resta de Portugal é a sua língua e restos culturais. Estamos numa nova era e há que adaptar-se aos novos tempos. Vocês querem energia, querem luz, então aceitem os estatutos.

- Mas entenda senhor Gustavo – interrompeu o ex-presidente para tentar acalmar os ânimos. – Aquilo que você pede é dar-nos energia em troca do seu controlo sob a nossa aldeia e terras e isso é um pouco exagerado.

Cap. 10 - RUTE

- Dormes no quarto dos convidados esta noite, amanhã de manhã deixarei-te no Centro de Dia para iniciares o processo de cidadania. Já vi que a minha mãe te deu roupa da minha ex-mulher, se queres podes escolher do armário aquilo que precisares.
Rute estava cansada e pouco depois de deitar-se na cama adormeceu, mas antes fantasiou um sonho com Gustavo, imaginou os dois a entrarem num bom restaurante, vestidos elegantemente, a terem conversas interessantes entre olhares apaixonados e depois um passeio junto ao mar numa noite quente de verão.
Por seu lado Gustavo, custou-lhe adormecer, imaginou que Rute se levantaria a meio da noite para deitar-se com ele e que sem necessidade de palavras faziam amor.
........
De todos os conselhos que Rute lhe dava, houve um parágrafo em especial que tinha ficado na mente de Gustavo:
 
- Quando estamos em tempos conturbados como estes, é necessário que surja um governo forte e decidido, sem medo de fazer cortes ou mudanças radicais, é importante que controle a opinião pública e a educação, que no seu seio não haja guerras internas ou divisões e que se necessário tenha que utilizar métodos pouco ortodoxos para obter um resultado de união e homogeneidade. A verdade será sempre aquela que os vencedores contam.

6/26/2015

Cap. 11 - O ATAQUE


- Ora bom dia meu amigo José Lino, que bom voltar a vê-lo. – Faz sinal aos homens que o acompanharam para que os deixassem sozinhos. – Da última vez que nos vimos as posições eram diferentes, você tinha um ar arrogante, trazia homens armados e praticamente nem me deixou falar e eu até tinha trazido as pessoas mais tolerantes e sensatas da minha equipa, mas como não funcionou hoje trouxe outras pessoas.

- Você é louco se pensa que isto vai ficar assim.

Gustavo soltou uma gargalhada espontânea e parecia divertir-se imenso com a situação.

- Então, diga-me o que vai acontecer, vem a polícia salvar-vos? o Estado? Alguma organização ou partido de esquerda que apoia minorias étnicas?

José Lino sentiu-se frustrado, Gustavo tinha razão, não havia ninguém que podia ajuda-lo, estava a mercê de um louco que tinha acabado de fazer um ato atroz ao seu povo e podia estar perto de assistir a uma chacina, preferiu ficar calado e ouvir o que aquele desequilibrado teria para contar-lhe, mas antes esclarecer um ponto.

Cap. 12 - CAÇA ÀS BRUXAS

Toda aquela emoção tinha deixado Gustavo com algum remorso do que tinha planeado, ainda mais quando teve que enfrentar-se à viúva com as duas pequenas filhas que tinham a idade dos seus filhos, Gustavo tinha chorado em público e até o próprio Norton e Zeca sabiam que aquelas lágrimas não eram teatro, realmente Gustavo sentia remorsos daquela situação e na sua cabeça existia a dúvida cada vez maior que tinha cometido um enorme erro, nenhum país, nenhum ideal ou nenhum regime pode estar certo quando cria uma tamanhã dor. Gustavo nunca contava os pormenores das suas ações a Rute, não era necessário, ela sabia de tudo e não queria saber todos os detalhes. Nessa noite Rute mais uma vez tratou do ânimo de Gustavo, dando força para seguir na sua difícil tarefa, que estava no bom caminho e que certos sacrifícios teriam de ser feitos para poder viver numa sociedade mais limpa e pura que a anterior ao ataque.