Páginas

6/28/2015

Cap. 1 - UMA VIDA CÓMODA


........Marta chegou quase às dezanove horas, com um ar agitado e stressado, pedindo desculpa pelo atraso, justificando-se com a avaria de uma máquina importante da fábrica, Gustavo não deu importância à sua desculpa, na realidade normalmente mal prestava atenção ao que dizia a sua mulher. Ao sentar-se em frente ao volante do seu carro pensou que seria penoso fazer estes duzentos e cinquenta quilómetros de viagens com Marta.

Gustavo colocou o CD de Chico Buarte para o ajudar a fazer a viagem, pensando que Marta não se queixaria pois a música seria calma e tranquila. Preferiria fazer aquela viagem com outra pessoa, achava a sua mulher muito desinteressante, não tinha qualquer gosto cultural, não entendia de música, só via filmes cómicos ou românticos, não gostava de ler e não sabia quase nada daquilo que passava no mundo, não ouvia nem via notícias. Gustavo já não a amava, sabia disso, achava-a uma mulher atraente, gostava do cheiro dela e de fazer amor com ela, mas já algum tempo que não a amava. Não pensava em divorciar-se, Marta era uma boa mãe para os seus filhos, os dois tinham conseguido criar um belo lar com uma bonita casa, tinham uma vida cómoda e confortável, mas estava seguro que se não houvesse filhos ele já teria pedido o divórcio. Alguma vez imaginou que Marta morria e que ficaria com o seu seguro de vida, mas rapidamente tirava essa ideia da cabeça, Marta era uma excelente mãe e Gustavo valorizava isso.


6/27/2015

Cap. 2 - UM VISITANTE INESPERADO


.....Gustavo pensou que não tinha percebido as palavras dela, “aquilo da Lua”, pensou que realmente aquela prima não estava bem da cabeça tal como a metade da população local.

Ao chegar a casa estranhou que os seus filhos já não estavam em frente à televisão e em vez deles estava o seu sogro, em vez de desenhos animados o canal estava a transmitir um extra informativo. “Objeto não identificado estacionou na Lua” estava em letras grandes no ecrã, enquanto dava imagens estáticas do que parecia ser uma espécie de prédio verde com pernas em cima da Lua. O jornalista falava sobre este acontecimento com bastante cuidado e repetindo-se frequentemente demonstrando que tinha pouca informação sobre o tema.

Cap. 3 - A LISTA

...ligou o seu computador, começando a organizar um pouco os papéis que estavam em cima da mesa. Começou por abrir o seu correio eletrónico e viu que havia um e-mail de Norton com o titulo de “8 dicas para sobreviver”, abriu o e-mail que tinha um endereço para um blogue de um tipo qualquer que fez uma lista sobre as coisas necessárias em caso de ataque dos extraterrestres.

1 – Abrigo
É necessário ter um esconderijo, tipo bunker, onde não poderão entrar os invasores;

2 – Comida
Há que comprar o quanto antes comida enlatada, desde grão, feijão, atum, sardinhas etc;

3 – Água potável
Possivelmente os invasores poderiam contaminar as nossas terras e águas pelo que, haverá que ter muita água potável;

4 – Armas
Irá reinar a lei do mais forte por isso, quando mais armas temos, mais hipóteses temos de sobreviver, será obrigatório também pensar em mascaras anti-gás;

5 – Medicamentos
As pessoas que necessitam de medicamentos para viver terão de ter umas quantas reservas preparadas e o melhor é criar uma coleção de primeiros socorros:

6 – Sementes
Como já disse é possível que os invasores contaminem o ambiente, mas caso isso não aconteça devemos juntar o máximo de sementes agrícolas para começar a criar a nossa alimentação;

7 – Energia
Rapidamente acabarão as nossas reservas energéticas, assim deveremos acumular o máximo possível de pilhas, materiais de energia solar e gasolina;

8 – Informação
Será necessário obter informação de como fazer as coisas, manuais sobre agricultura, energia, eletricidade, informática etc.

Cap. 4 - O DECLÍNIO

Ao terminar a conversa Gustavo sentiu-se com sorte por ter um amigo tão leal como Norton, além disso, sentiu-se forte, o líder de uma quadrilha de mafiosos que iriam dar um grande golpe, mas em seguida pensou que assaltar uma farmácia e um camião era coisa de ladrões que poderia ter muitos problemas e ainda acabar na prisão cheio de vergonha, que essas artimanhas não eram para ele, simples funcionário camarário, que seria melhor não cometer qualquer crime. Tinha dúvidas e sentiu-se numa encruzilhada, ainda a menos de cinco minutos dava ordens de execução de um assalto ao seu amigo e agora vacilava, sentia que estava a jogar numa liga fora da sua, que podia cometer um erro. Tinha de encontrar uma solução sem necessidade de arriscar o que tinha conseguido até agora.

Cap. 5 - A ESPERA


Era evidente que o ambiente que se vivia naquela casa era de alegria e satisfação, de relaxamento e amizade, o único elemento discordante era Gustavo, que via passar mais um dia sem qualquer ataque e via pelas notícias que aos poucos a sociedade se ia acalmando. Não estava feliz, estava sim preocupado que não houvesse ataque ou pior que o ataque fosse daqui a muito tempo. A presença dos seus sogros também não ajudava, não gostava deles, eram demasiado simplórios e ignorantes e as constantes afirmações onde ridicularizavam as suas compras, estavam pô-lo à beira de um ataque de nervos.

Gustavo dormiu mal durante a noite e quando acordou de manhã tudo estava igual, a única diferença era alguma chuva que caía. Durante todo o dia olhou para céu à espera que algo acontecesse, mas do céu só caiam umas gotas que faziam que o cheiro proveniente da terra fosse diferente. A televisão dava conta que começavam a abrir as lojas, centro comerciais e hipermercados em Lisboa e no resto do mundo a situação acalmava-se. Marta falou ao telefone com o seu chefe e este tinha-lhe dito que segunda-feira retomariam a produção. Logicamente que Marta informou o seu marido que amanhã, domingo, teriam de voltar à sua casa. Os seus sogros já estavam a fazer as malas, amanhã de manhã já se iriam para Barrancos, apenas queriam ir visitar uma prima de Maria em Castelo Branco e depois partiriam. Gustavo sentia-se derrotado, não podia fazer nada para que a sua família continuasse ali, mais que isso, sentia-se dececionado com os extraterrestres que tinham ameaçado e que não tinham cumprido com a ameaça. Além disso, já não suportava as piadas dos seus sogros em relação aos animais que estavam no quintal.

Cap. 6 - O RECOMEÇAR

Ao terminarem uma curva, o carro de Norton para. À frente deles estava o limite da cidade, mas essa cidade já não existia, em vez dela estava uma poeira enorme, uma espécie de nevoeiro que não permitia ver nada. Esse nevoeiro não se mexia, parecia estático, era como uma barreira branca que ia desde o solo até às nuvens. Era impressionante e medonho. Após vários minutos a olharem para aquilo, Gustavo decidiu avançar devagar até ao nevoeiro, os outros dois ficaram para trás rígidos pedindo-lhe cuidado a Gustavo, quando este tentava avançar pela camada branca sente um cheiro nauseabundo e em seguida os seus olhos ficam a arder e deixa de ter oxigénio. Rapidamente recua a tossir e os seus dois companheiros vão ajuda-lo a recompor-se. Sentam-no numa pedra que estava bem mais atrás, para que Gustavo possa recuperar e juntos olham para aquele fenómeno branco como se fosse um espetáculo terrível.

Cap. 7 - A REUNIÃO

Gustavo afastou-se com a dúvida se tinha magoado os sentimentos do velho Proença, mas com alívio de deixar para trás aquele ser que lhe dava repúdio. Pelo seu lado, Proença ficou imóvel durante algum tempo, perplexo com as palavras de Gustavo. Antes da reunião tinha intenção de dar lugar aos novos, de deixar a presidência da comissão em alguém mais jovem da sua confiança e ao ouvir Gustavo pensou que seria a pessoa idónea para assumir essa responsabilidade. Jamais lhe passou pela cabeça que alguém podia candidatar-se à comissão sem que ele estivesse na cabeça da lista ou pelo menos na lista. Ele tinha criado a comissão, tinha representado a aldeia durante vinte anos e agora um menino da cidade vinha com a intenção e tirar-lhe o lugar sem sequer pedir licença ou autorização. A sua perplexidade passou a indignação e em seguida a fúria e humilhação. Decidiu que não iria sair assim, pela porta traseira, a sua obra e o seu legado merecia o reconhecimento dos seus concidadãos. Dirigiu-se para casa pensando numa forma de vingar a humilhação que Gustavo lhe fez passar, estava decidido que iria continuar a ser o presidente da comissão nem que para isso tivesse que convencer ou mesmo obrigar a votarem todos nele.